O valor estratégico do design e o caso Flamboyant x Kibon

Se design não fosse importante, marcas não se pareceriam tanto. Afinal, cada elemento da identidade visual (cores, formas, composições, tipografias, padrões, embalagens) é um ativo estratégico construído para gerar reconhecimento, confiança e memória visual na mente do consumidor. Por isso faz tanto sentido que empresas líderes se sintam ameaçadas quando esses elementos são copiados e por isso, também, que a Justiça esteja cada vez mais atenta a casos de imitação visual.

Um exemplo recente disso envolve duas marcas no mercado de sorvetes brasileiro: a tradicional Kibon, uma marca consolidada e associada a décadas de consumo e nostalgia, e a Flamboyant, uma concorrente regional cujo design de embalagens foi considerado tão semelhante ao da Kibon que resultou em uma condenação judicial por concorrência desleal.

O que aconteceu no caso Flamboyant x Kibon?

Em um processo movido pela Unilever (proprietária da marca Kibon) a Justiça de São Paulo entendeu que os produtos e materiais de ponto de venda da Flamboyant apresentavam semelhança visual relevante com elementos já estabelecidos na identidade visual da Kibon. A decisão não se baseou apenas em opinião subjetiva: uma perícia técnica comprovou a elevada similaridade entre as embalagens e freezers das duas marcas.

A sentença determinou:

  • condenação da Flamboyant ao pagamento de R$ 50 mil por danos morais;
  • reconhecimento de que houve reprodução sistemática da identidade visual da Kibon;
  • posterior cálculo de danos materiais relacionados à violação.

O argumento de defesa da Flamboyant (de que seguiu padrões “comuns ao setor de sorvetes”) foi rejeitado justamente porque a semelhança ultrapassou o que pode ser considerado coincidência ou tendência de mercado e passou a configurar um atalho visual que poderia confundir o consumidor.

Por que design é tão estratégico para marcas?

O case ilustra bem um princípio fundamental do branding:

Design não é “apenas beleza”; é linguagem estratégica que constrói significado, diferenciação e valor na mente das pessoas.

Quando uma marca como a Kibon gasta décadas consolidando uma estética específica (formas, cores e padrões que remetem instantaneamente ao seu universo) isso cria atalhos cognitivos no cérebro do consumidor. Esses atalhos facilitam decisões rápidas no ponto de venda e fortalecem a confiança ao longo do tempo.

🔹 O que acontece quando outra marca se parece demais?
O consumidor pode associar erroneamente um produto à marca líder, o que dilui a identidade original e reduz a vantagem competitiva construída ao longo de anos de posicionamento e investimento em design.

🔹 Por que isso é perigoso?
Porque não estamos falando de coincidência estética neutra. Estamos falando de semelhança capaz de confundir o consumidor sobre a origem do produto — e isso afeta diretamente escolhas de compra, percepção de qualidade e confiança.

Inspiração x imitação: onde fica o limite?

Para profissionais de design, existe uma linha tênue entre:

  • inspiração legítima — aprender com tendências, estilos e referências do mercado;
  • replicação indevida — copiar elementos tão próximos que possam levar à associação automática com outra marca.

O caso Flamboyant x Kibon mostra que ultrapassar esse limite pode trazer consequências além do campo criativo: consequências legais, reputacionais e econômicas.

Três lições importantes para designers e marcas

1. Identidade visual é um ativo estratégico
Não é apenas estética, é história, promessa de marca e valor percebido — elementos que justificam proteção e respeito.

2. Originalidade constrói valor sustentável
Criar algo original pode ser mais trabalhoso do que repetir o que “já funciona”, mas é assim que se constrói diferenciação verdadeira.

3. Conheça os limites legais da inspiração
Entender leis de marcas, trade dress e concorrência desleal ajuda a orientar decisões criativas e estratégicas, evitando dores de cabeça no futuro.

Deixe um comentário