Se a Geração Z está colocando strass no celular, no copo, no nécessaire e até no bolo, talvez seja hora de olhar para essa febre menos como uma moda passageira e mais como um sinal de mudança na relação entre pessoas, objetos e marcas.
O termo vem de bedazzle, algo como deslumbrar, ofuscar pelo brilho. Na prática, significa decorar objetos com strass, cristais, pedrarias, adesivos brilhantes e tudo aquilo que possa transformar uma coisa comum em alguma coisa mais chamativa, divertida e, principalmente, pessoal.
Em 2026, a tendência ganhou uma nova dimensão. Capinhas de celular, copos, produtos de beleza, bolsas, roupas, unhas e até bolos passaram a receber uma camada generosa de pedrinhas. O movimento se espalhou pelas redes sociais e passou a ser associado à Geração Z, ao retorno da estética Y2K e a uma espécie de maximalismo afetivo.
Quando Kylie Jenner colocou brilho no bolo
Em agosto de 2026, Kylie Jenner comemorou seus 29 anos com uma festa inspirada em uma estética divertida e nostálgica. Entre os elementos que chamaram atenção nas imagens publicadas nas redes estavam um bolo e copos decorados com pedrinhas coloridas.
Foi o tipo de imagem perfeitamente preparado para a lógica das redes: simples de entender, altamente visual e fácil de reproduzir.
Depois disso, o bedazzling ganhou ainda mais força. Conteúdos de pessoas customizando objetos começaram a circular em grande quantidade, enquanto marcas perceberam rapidamente que havia ali uma linguagem visual capaz de gerar conversa e compartilhamento.
Empresas como Sephora e Ulta passaram a incorporar objetos cravejados em seus conteúdos nas redes. A Sol de Janeiro também entrou na conversa, depois de perceber que consumidoras já estavam customizando seus produtos por conta própria.
É aqui que o assunto começa a ficar especialmente interessante para quem trabalha com design.
O objeto deixou de ser apenas objeto
Durante muito tempo, uma das grandes preocupações do design foi criar produtos visualmente coerentes, funcionais e reconhecíveis.
O bedazzling propõe quase o movimento contrário. Pegue um objeto pronto e torne-o seu. Uma bolsa deixa de ser apenas uma bolsa. Um copo deixa de ser apenas um copo. Uma capinha deixa de ser apenas uma proteção para o celular. Eles passam a funcionar como pequenas telas em branco.
Essa lógica não nasceu agora. A customização sempre esteve presente na moda, no design e na cultura visual. O que muda é a escala e a velocidade com que ela se espalha.
A Geração Z cresceu cercada por objetos altamente industrializados, interfaces padronizadas, filtros, templates e plataformas que organizam boa parte da experiência visual cotidiana.
Nesse cenário, colocar uma pedrinha torta em um objeto perfeitamente produzido industrialmente pode ser justamente o gesto criativo. É uma maneira de dizer: isso é meu.
Do “clean” ao “me deixa exagerar”
Durante alguns anos, o minimalismo dominou boa parte da comunicação visual, da moda e do branding.
Paletas neutras. Tipografias discretas. Embalagens limpas. Ambientes quase assépticos. O chamado quiet luxury levou essa estética ainda mais longe.
O bedazzling parece surgir como uma resposta visual a esse excesso de contenção. A própria imprensa de moda vem relacionando o movimento ao retorno da estética Y2K e ao chamado maximalismo.
Mas existe uma diferença importante em relação ao maximalismo de outras épocas. Agora, o consumidor também é autor. Ele interfere, acrescenta, mistura, desmonta e reconstrói.
E então vieram os charms
É impossível falar de bedazzling sem olhar para outra febre que tomou conta da moda recentemente: os bag charms.
Os pequenos penduricalhos passaram de simples chaveiros a verdadeiros elementos de identidade. Plushies, correntes, miçangas, personagens, objetos em miniatura, letras e acessórios começaram a ocupar as bolsas, inclusive as de luxo.
A lógica é parecida. Uma bolsa produzida em milhares de unidades pode ser exatamente igual à de outra pessoa, mas coloque três charms nela e a história muda.
A bolsa passa a carregar referências sobre quem a usa: humor, nostalgia, personagens favoritos, viagens, hobbies, afetos.
Para as marcas, o recado é importante
A grande oportunidade é entender por que as pessoas estão querendo colocar strass nas próprias coisas. Existe uma busca por personalidade, nostalgia, humor e participação.
Uma marca pode simplesmente reproduzir a tendência e lançar uma embalagem cravejada ou pode fazer algo mais interessante: permitir que o consumidor participe da construção da estética com adesivos, elementos colecionáveis, edições personalizadas e pequenos acessórios que permitem transformar o produto.
O novo luxo pode ser poder personalizar
Enquanto o mercado de luxo passou anos vendendo exclusividade por meio de produtos raros e caros, uma parte importante da cultura jovem está encontrando exclusividade de outra maneira. Não necessariamente comprando algo que ninguém tem, mas transformando algo que milhares de pessoas têm em algo que só ela tem.
A principal lição é simples: as pessoas não querem apenas consumir design, elas querem brincar com ele.
