Se a tecnologia consegue produzir milhares de imagens em poucos minutos, o que vai diferenciar uma boa ideia no futuro? Essa é uma das perguntas que começam a aparecer com mais força no debate sobre criatividade.
O próprio D&AD Trend Report 2026, guia essencial da indústria criativa que analisa as principais tendências, publicado em 22 de setembro, olha para as forças que estão remodelando a publicidade e o design a partir da análise de 30 mil trabalhos de 89 países. O relatório reúne padrões identificados nos trabalhos avaliados e nas discussões dos júris, buscando entender não apenas o que está acontecendo agora, mas para onde a indústria criativa está caminhando.
Uma coisa parece cada vez mais evidente: o futuro do design não será definido apenas pela capacidade de produzir. Será definido pela capacidade de escolher.
Uma imagem que antes exigia pesquisa, fotografia, edição e horas de trabalho pode hoje ganhar dezenas de versões em poucos minutos. O mesmo acontece com textos, ilustrações, conceitos visuais e até identidades. Isso amplia as possibilidades do designer, mas também cria um novo problema: quando tudo pode ser criado, como decidir o que merece ser criado? A abundância de possibilidades pode ser tão desafiadora quanto a falta delas.
O olhar passa a valer mais
Durante muito tempo, dominar ferramentas era uma parte importante da profissão: Photoshop, Illustrator, InDesign, animação, fotografia, edição. Saber executar fazia diferença.
Agora, as ferramentas estão cada vez mais acessíveis e automatizadas. Isso não torna o conhecimento técnico inútil, mas muda o lugar onde está boa parte do valor.
O designer precisa saber por que usar determinada imagem, tipografia, cor ou composição. Precisa reconhecer quando uma solução está genérica, quando uma referência já foi excessivamente explorada e quando uma ideia realmente conversa com uma marca ou com as pessoas. Repertório e senso crítico se tornam ferramentas tão importantes quanto qualquer software.
O design bonito já não é suficiente
Quanto mais fácil fica produzir algo visualmente sofisticado, menos exclusivo se torna simplesmente parecer sofisticado.
A própria D&AD destacou, entre as tendências observadas em 2026, o retorno do maximalismo como contraponto à conformidade visual. Em outro recorte de suas análises, jurados também apontaram que trabalhos tipográficos com maior profundidade conceitual e valor humano podem se tornar ainda mais importantes em um cenário marcado pela IA. Isso significa que ter personalidade pode ser mais importante do que simplesmente parecer perfeito.
O papel do designer tende a se aproximar cada vez mais do de um diretor, editor e curador de ideias. Alguém que consegue olhar para dezenas de possibilidades e entender qual delas tem sentido.
